015# Sylvia Plath

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A Invernar

É fácil este tempo, não há nada para fazer.
Pus a andar a centrifugadora da parteira,
Tenho o meu anel,
Seis jarros dele,
Seis olhos de gato na adega,

A invernar na escuridão sem janela
No coração da casa
Junto à compota rançosa do último inquilino
E de garrafas de brilhos vazios
Gin do senhor D. Fulano.

Este é quarto onde nunca estive.
Este é quarto onde nunca pude respirar
O escuro enfeixou-se lá como um morcego,
Sem outra luz
Que a da tocha e seu desmaiado

Amarelo-chinês sobre objectos aterradores –
Obstinação negra. Ruína.
Posse.
São elas que me têm.
Nem cruéis nem indiferentes,

Apenas ignorantes.
Este é um tempo de espera para as abelhas – as abelhas
Tão lentas que mal as conheço,
Em fila como os soldados
Para a lata do xarope

Para compensar o mel que lhes tirei.
O Tate & Lyle mantém-nas activas,
Neve refinada.
Vivem de Tate & Lyle em vez de flores.
Tomam-no. O frio instala-se.

Agora amontoam-se uma sobre as outras,
Negra
Razão contra todo aquele branco.
O sorriso da neve é branco.
Alastra como porcelana de Meissen de uma milha de comprimento,

Para onde, nos dias quentes,
Só podem carregar os seus mortos.
Todas as abelhas são mulheres,
As servas e, mais alongada, a real Senhora.
Livraram-se dos homens,

Desses insensíveis, desses desastrados sem graça, desses brutamontes.
O Inverno é para as mulheres –
A mulher, quieta, a fazer malha,
Junto ao berço de nogueira espanhola,
O seu corpo é um bolbo ao frio, e tem o ar parado de quem não pensa.

A colmeia vai sobreviver, os gladíolos vão
Conseguir apagar os seus fogos e
Entrar em mais um ano?
A que é que saberão, as rosas-do-natal?
As abelhas voam. Já sentem o gosto da Primavera.

Sylvia Plath
In “Ariel”, Relógio D’Água
Trad. Maria Fernanda Borges


014# Nuno Júdice

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As duas Mulheres

Rezai por ela, a mulher que trocou
as lágrimas por palavras: e ainda
escreve, num caderno de noite e de
névoa, o poema sem rima nem versos.
E rezai por essa outra, ébria de
luz, que fecha os olhos para se
rir, ocultando o rosto nos ombros
do soldado. Nenhuma delas se encontrou,
em margem alguma; e correm
em direcções contrárias os rios
das suas vidas. No entanto, o choro
de uma tocou a outra, e esta emudece.
“Que tens?”, inquieta-se o homem. E
ela empurra-o, de olhos abertos,
enfrentando a luz: “Uma estranha
irmã chamou por mim; e confundiu-se
comigo; e roubou-me o riso dos lábios”.

Nuno Júdice
In “Poesia Reunida 1967-2000”, Dom Quixote


013# Cristina Campo

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Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau…

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava –

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Cristina Campo
In “O Passo do Adeus”, Assírio & Alvim
Trad. José Tolentino Mendonça


012# Luiza Neto Jorge

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Adormeci
na verde margem
à sombra da ponte
com o meu amigo

Ao despertar
nem sombra nem rio eram
os mesmos
nem eu nem meu amigo
os mesmos
nem verde a inundada
margem

Luiza Neto Jorge
In “poesia”, Assírio & Alvim


011# Ledo Ivo

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Queime tudo o que puder :
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita

Ledo Ivo
in “A Queimada”


010# E. E. Cummings

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no tempo há a nobre clemência da proporção
Com generosidades para lá do acreditar
(embora carne e sangue o acusem de coacção
ou mente e alma o condenem por decepcionar)

os seus caminhos não são racionais nem irracionais,
a sua sabedoria anula conflito e entendimento
- os saaras têm os seus séculos; dez mil
dos quais são mais pequenos do que a rosa para um momento

há tempo para rir e há tempo para chorar –
para a esperança para o desespero para a paz para a saudade
- um tempo para crescer e um tempo para morrer:
uma noite para o silêncio e um dia para cantar

mais do que tudo (como os teus mais do que olhos
me dizem) há um tempo para a eternidade

E. E. Cummings
In “livrodepoemas”, Assírio & Alvim
Trad. Cecília Rego Pinheiro


009# António Franco Alexandre

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Corto viaggio sentimentale, capriccio italiano (27)

venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.

António Franco Alexandre
In “Quatro Caprichos”, Assírio & Alvim


008# Henri Michaux

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Onde pousar a cabeça?

Um céu
um céu porque a terra já não existe
sem uma asa, sem penugem, sem plumagem de pássaro, sem condensação

estritamente, unicamente céu
um céu porque a terra já não existe

Depois da explosão de grisu na cabeça, o horror, o desespero,
depois de já não haver mais nada, tudo devastado, metido a pique, sem saída

um céu glacialmente céu

Presentemente obstruído, bloqueado, atravancado de destroços;
céu por causa da enxaqueca da terra
desprovida de céu

um céu porque já não há sítio nenhum onde pousar a cabeça

Atravessado, encolhido, amolgado, roído, desfeito intermitente, irrespirável no meio das explosões e dos fumos
que não serve para nada

um céu doravante irrecuperável

Henri Michaux
In “Antologia”, Relógio D’Água
Trad. Margarida Vale de Gato


007# Al Berto

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ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-se
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço

Al Berto
In “Horto de Incêndio”, Assírio & Alvim


006# Bertolt Brecht

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Epístola sobre o Suicídio

Suicidar-se
É coisa corriqueira.

Pode-se falar nisso à mulher-a-dias
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Há que evitar um
Certo pathos simpático.
Mas não é preciso fazer disto um dogma.
No entanto, parece-me preferível
O pequeno Bluff do costume:
Estar farto de mudar de roupa, ou melhor:
A mulher pôr-los
( O que faz um certo efeito aos que se impressionam com essas coisas
E não é demasiado bombástico.)
De qualquer modo
Não se deve dar a impressão
De que se dava
Muita importância a si mesmo.

Bertolt Brecht
In “Poemas”, Campo das Letras
Trad. Arnaldo Saraiva


005# Sophia M. Breyner Andresen

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A forma justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome de terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavras em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do Universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen
in “O nome das coisas”, Caminho


004# Tassos Denegris

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O exemplo de Leonardo

O Leonardo de dez anos
A andar de bicicleta
Caíu e esfolou o joelho.
Morreu com dores horríveis
A doença chama-se tétano
Oito linhas na Enciclopédia.
O pequeno Leonardo devia ser muito solitário
Se pensarmos que os seus amigos
Eram o avô já morto
Que ele só conhecia das histórias
E aquela bicicleta vermelha.
Dos três apenas resta a bicicleta
Arrumada na arrecadação escura
Entre fotografias de lutadores
E utensílios de pesca ferrugentos.

Tassos Denegris
in "A outra versão", Quetzal Editores


003# António Franco Alexandre

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nada os meus olhos deixarão na cinza
das vastas folhas envidraçadas: nem
o astrológico número das horas
autorizadas pela autoridade e sua penumbra.
a “penumbra da autoridade” vem vestida
de muitos horizontes com, aqui ou além, um barco
de velas estilhaçadas, ou a capa de um livro
de viagens na vitrina.
então o amor mistura-se com as coisas breves,
os pássaros, o rumor dos alicates na gaveta branca.
foi esta a sua história? esta canção pertence-lhe?
a “greve” alourou-lhe as sobrancelhas? estes olhos
têm plástico ao contrário. e o ruído
das torneiras no balde, mesmo
à beira do precipício,
é um inconveniente que convém manter
sob vigilância.

António Franco Alexandre
in “Poemas”, Assírio & Alvim


002# Ernst Stadler

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A Sentença

Num velho livro topei com uma palavra escrita,
Que como um choque me marcou e ilumina toda a minha vida:
E quando me entrego ao prazer embotante,
E à essência prefiro a aparência, a mentira e o falso semblante,
Quando, de ânimo leve, a mim mesmo me engano com pequenos nadas,
Como se fosse clara a escuridão, como se a vida não tivesse mil portas brutalmente fechadas,
E agarro coisas cujo sentido profundo não vivi,
Quando, com mãos aveludadas, o sonho bem-vindo me acaricia
E de trabalhos e dias me alivia,
Alienado do mundo, estranho à minha própria consciência,
Então ergue-se em mim essa palavra: Homem, torna à tua essência!

Ernst Stadler
in “A Alma e o Caos – 100 poemas expressionistas”, Relógio D’Água
trad. João Barrento


001# Luís Miguel Nava

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Cisão
Gostava de saber até que ponto a ideia de céu e a de unidade andam ligadas. Só assim poderia avaliar que peso tem o facto de eu sentir que o céu se encontra dividido e uma das partes se alojou transversalmente no meu corpo. Tal é às vezes o seu peso, que me vejo constrangido a andar dobrado.
Luís Miguel Nava
in "Poesia Completa 79-94", Dom Quixote


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